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terça-feira, 22 de maio de 2018

22 de Maio de 1871: Abrem as Conferências Democráticas, no Casino Lisbonense, com a discussão de "O Espírito das Conferências", de Antero de Quental.


Série de conferências - também conhecidas simplesmente por Conferências do Casino - levadas a público em 1871, em Lisboa, por iniciativa do chamado grupo do Cenáculo, de que faziam parte Antero de Quental, Eça de Queirós, Jaime Batalha Reis, Salomão Sáragga, Manuel Arriaga e Guerra Junqueiro. Este é o ponto mais alto da Geração de 70. Visavam abrir um debate sobre o que de mais moderno, a nível de pensamento, se vinha fazendo lá fora. Aproximar Portugal da Europa era o objetivo máximo, anunciado, aliás, no respetivo programa.


O programa das Conferências, que surgiam como uma espécie de consequência natural das discussões ideológicas travadas no Cenáculo, anunciava "ligar Portugal com o movimento moderno", "agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência Moderna" e "estudar as condições da transformação política,económica e religiosa da sociedade portuguesa".


A conferência inaugural, intitulada "O espírito das conferências", foi proferida por Antero de Quental, que afirmou a necessidade de regenerar Portugal "pela educação da inteligência e pelo fortalecimento da consciência dos indivíduos". Na segunda conferência, o mesmo Antero analisou as "Causas da decadência dos povos peninsulares", que, na sua opinião, correspondiam ao catolicismo pós-tridentino, que impôs o obscurantismo à centralização política das monarquias absolutas, que determinou o aniquilamento das liberdades locais e individuais, e à política expansionista ultramarina, que impediu o desenvolvimento da pequena burguesia. A terceira conferência, intitulada "A literatura portuguesa", foi pronunciada por Augusto Soromenho, que denunciou a decadência da literatura portuguesa e defendeu a necessidade de "dar por base à educação a moral, o dever, do que aproveitará a literatura". A quarta conferência, "A Nova Literatura (O Realismo como nova expressão da Arte)",foi proferida por Eça de Queirós, que aí lançou os fundamentos da sua conceção de Realismo, influenciada por Flaubert, Proudhon e Taine. A quinta conferência coube a Adolfo Coelho, que avançou algumas propostas revolucionárias para a reorganização do ensino em Portugal, a mais importante das quais consistia na "separação completa do estado e da igreja".


As conferências foram interrompidas antes da sexta, que seria dita por Salomão Sáragga e que versaria sobre os críticos históricos de Jesus, por portaria ministerial do Marquês de Ávila e Bolama, onde se alegava que nas conferências se tinham sustentado "doutrinas e proposições que atacam a religião e as instituições políticas doestado". Os conferencistas reagiram contra a proibição com um protesto público, com o qual se solidarizaram vários intelectuais, como Alexandre Herculano, que acudiram em defesa da liberdade de expressão.

De qualquer modo, entre os intelectuais portugueses, ficou o gérmen da modernidade do pensamento político,social, pedagógico e científico que na França, na Alemanha e na Inglaterra se fazia sentir. Este espírito revolucionário e positivista dominava a maioria da jovem classe pensante.

Fontes: Conferências Democráticas do Casino Lisbonense. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. 




22 de Maio de 1885: Morre o escritor francês Victor Hugo, autor de "Os Miseráveis"


O maior escritor do século XIX, Victor Hugo, morre em 22 de Maio de 1885 de congestão pulmonar, aos 83 anos. O carro fúnebre “dos pobres”, como desejara, carregaria o ataúde ao local das cerimónias oficiais. Os seus restos mortais seriam expostos sob o Arco do Triunfo e depois levados para o “Panthéon”. Uma multidão de 2 milhões de pessoas seguiu o cortejo. 


O autor de Os Miseráveis, O Corcunda de Notre-Dame, Hernâni,  Contemplações e tantas outras obras-primas brilhou em vários géneros, passando da poesia ao romance histórico e às peças de teatro. 


Victor Hugo nasceu em 26 de Fevereiro de 1802 em Besançon, sendo o mais novo de três irmãos. O seu pai era general do Império Napoleónico. Mas foi a sua mãe, em particular, que o educou. 


Ainda no liceu, Hugo parecia já ter uma ideia bem precisa do seu futuro. Aos 14 anos escreveu: “Quero ser como Chateaubriand ou nada.” A sua inspiração, François-René de Chateaubriand foi um escritor que se imortalizou pela magnífica obra literária pré-romântica. É notado pelo rei Luis XVIII que lhe manda pagar uma pensão. Em 12 de Outubro de 1822 casa-se com Adele Foucher, uma amiga de infância, com quem teve cinco filhos. 


Hugo junta-se a alguns escritores e formam o grupo Cenáculo. Este círculo de jovens autores seria o foco do romantismo. Em 1827, publica a peça Cromwell. O prefácio anuncia claramente a sua vontade de romper com as regras clássicas – unidade de tempo, de lugar e de acção. Aos 27 anos, Hugo apresenta uma nova peça, Hernâni, na Comédie-Française. 


Os partidários do classicismo mostram-se ofendidos uma vez que a regra das três unidades não fora respeitada. O confronto entre os românticos e os clássicos é violento. Travariam a mesma batalha a cada representação de Hernâni. Hugo torna-se o cão de fila da escola romântica, em companhia de Gérard de Nerval e Théophile Gautier. 


Em 1828, surgem os Orientais e o Último Dia de um Condenado. Em 1831, publica o seu primeiro romance histórico, O Corcunda de Notre Dame, que celebrizou as personagens Quasimodo e a cigana Esmeralda. Desde o lançamento, a obra conheceu um extraordinário sucesso. O público romântico apreciou sobremaneira o universo da Idade Média recriado magistralmente por Hugo. 


Em Fevereiro de 1833, é levada ao palco a primeira representação da sua Lucrécia Bórgia. Entre os actores  encontrava-se Julie Drouet, por quem Hugo se apaixona. Essa história de amor duraria cinquenta anos. 


Em 1841, é eleito para a Academia Francesa de Letras. A sua filha primogénita, Léopoldine, morre jovem em 1843. Esta tragédia afecta-o profundamente e muitos creem que foi o acontecimento que o levou para a política. 


É eleito pelo Partido Republicano, deputado à Assembleia Constituinte de 1848. Condena asperamente o Golpe de Estado de 2 de Dezembro de 1851 do príncipe Luís Napoleão, sobrinho de Napoleão Bonaparte, a quem cognominava  ‘Napoleão, o Pequeno’ em contraposição a Bonaparte que chamava  ‘Napoleão, o Grande’. 


Forçado ao exílio na Bélgica, Hugo aproveita para compor poemas que reúne em Les Châtiments (1853) e Contemplações (1856). Em 1862, conclui Os Miseráveis, que obtém estrondoso sucesso de público e crítica e que torna imortais personagens como o trabalhador Jean Valjean e o chefe de polícia Javert. 

Com a proclamação da República em 1870, Hugo regressa a Paris. Encarna aos olhos do povo a resistência republicana ao Segundo Império. Em 8 de Fevereiro de 1871, é eleito para deputado e, em 1876, senador. Uma de suas primeiras intervenções é a defesa em favor da amnistia aos ‘communards’ da Comuna de Paris. Quando completou 80 anos, uma multidão estimada em 600 mil pessoas desfilou diante das suas janelas na Place Vendome. 


Victor Hugo sobressaiu-se também no campo político e social. Lutou contra a pena de morte, pela paz, pela condição feminina, denunciou o clero. Reconhecido em vida pelos seus pares e pelo povo como o grande escritor de seu tempo, a obra imortal de Victor Hugo é um património da cultura universal. 


Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)
Victor Hugo em 1875, por Comte Stanisław

Cricatura de Victor Hugo no ponto máximo da sua carreira política, por Honoré Daumier, (1849)
O funeral de Victor Hugo

22 de Maio de 1911: Criação do Escudo, unidade monetária da República Portuguesa


O escudo foi criado em 22 de maio de 1911, cinco meses após a Proclamação da República, por decreto do Governo Provisório. O ministro das Finanças era, então, José Relvas. A nova moeda renovou o sistema monetário português, colocou a unidade monetária portuguesa ao nível das dos outros países e evitou as desvantagens práticas do real (moeda da monarquia), cujo valor era muito pequeno, o que obrigava ao emprego de grande número de algarismos para representar na escrita uma quantia. Assim, a taxa de conversão foi fixada em mil réis(reais). 

A nova moeda foi buscar o nome ao início da II Dinastia. O Rei D. Duarte, quando decidiu retomar a cunhagem e mouro, mandou bater os primeiros escudos, dado que era esta a figura que aparecia representada na moeda. Ao longo da história da monarquia, outros reis mandaram cunhar moedas de ouro com esta denominação. O escudo era, assim, uma moeda nobre por ser fabricada naquele metal precioso. Deverá ter sido esta uma das razões que levou os responsáveis do regime republicano a designarem a nova unidade monetária desta forma.


Segundo o preâmbulo do decreto de 22/05/1911, encontravam-se, na altura, em circulação cerca de 34 400 contos de moedas de prata e 3 900 contos de moedas de cupro-níquel e de bronze. O mesmo diploma mandou substituir estes valores por 35 500 contos de moedas de prata de 1$00, $50, $20 e $10 e por 3 750 contos de bronze-níquel de $04, $02, $01 e $005, mas este plano nunca foi integralmente cumprido. As primeiras moedas só foram cunhadas em 1912 e até 1917 apenas foram emitidos cerca de 13 000 contos de novas moedas em prata.

Quanto ao papel-moeda, encontravam-se em circulação, no momento da Proclamação da República, notas de 500, 1 000, 2 500, 5 000, 10 000, 20 000, 50 000 e 100 000 réis que o Banco de Portugal alterou, apondo-lhes sobre a coroa a sobrecarga República, tendo desta forma continuado em circulação até 1929. Contudo, a primeira nota emitida em escudos data de 1913 e resultou da alteração da chapa já gravada destinada à nota de 5 000 réis,que passou assim a apresentar o valor facial de 5 escudos/ouro chapa I. Nela figurava Alexandre Herculano. A primeira nota efetivamente concebida para escudos foi a de 20 escudos/ouro chapa I, com uma primeira emissão datada de 14 de outubro de 1916. No centro desta nota aparecia Almeida Garrett e dos lados as figuras alegóricas da Justiça e da Glória. 

A mudança do sistema monetário estendeu-se às colónias portuguesas de África, por decreto do Governo Provisório de 22 de maio de 1911, complementado pelo decreto nº 141, de 18 de setembro de 1913 que determinou ainda que a contabilidade pública das colónias portuguesas de Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique deveria ser feita de acordo com o novo sistema monetário a partir de 1 de janeiro do ano seguinte. Foi também em 1913 que a contabilidade do Estado português passou a ser feita em escudos.


Desde 1911, data do I Governo Constitucional, vivia-se em Portugal um forte clima de instabilidade política,agravado, em 1914, pela Primeira Guerra Mundial e pela participação de Portugal neste conflito a partir de 1916.As consequências internas foram gravosas. O período de 1917 a 1924 caracterizou-se pela escassez de moeda,coexistindo as de bronze, com as de ferro e cupro-níquel. Para as substituir, registou-se uma avalanche de cédulas e outro numerário de papel. A subida dos preços que acompanhou a Primeira Guerra Mundial e se prolongou até 1924 fez com que o escudo neste ano passasse a valer menos 25 vezes do que aquando da sua criação e o valor intrínseco da moeda metálica ultrapassou o respetivo valor nominal, provocando o seu entesouramento,nomeadamente através de depósitos no estrangeiro. Ao mesmo tempo, surgiram cédulas emitidas à margem da lei para as substituir. Como medida para ultrapassar esta situação, o Banco de Portugal e a Casa da Moeda emitiram cédulas, tendo aquele procedido ainda à impressão de notas de valores muito baixos - 50 centavos e 1 escudo. Na mesma época, circularam igualmente notas de 2, 5, 10, 20, 50, 100, 500 e 1 000 escudos, em mais de uma chapa,nelas figurando personalidades de relevo da História portuguesa.

Em 1924, o ministério de Álvaro de Castro tomou uma série de medidas para travar a queda do escudo,nomeadamente a venda de reservas de prata do Banco de Portugal. Neste ano, o executivo reformou também amoeda metálica, aumentando o teor da liga e reduzindo o seu valor real. As cédulas foram sendo recolhidas e retiradas de circulação, sendo substituídas por moedas de 1 escudo e de 50 centavos em bronze e alumínio, de 20, 10 e 0,5 centavos em cobre. Em 1927, foi decretada a substituição das moedas de bronze e alumínio por moeda de igual valor em alpaca. Quanto às notas, o Banco de Portugal lançou novas notas e reforçou as anteriores. De recordar que o escudo em 1924 valia 25 vezes menos do que em 1911, em grande parte devido ao esforço financeiro português na Primeira Guerra Mundial. Em 1925 deu-se o maior escândalo financeiro da história do escudo: a grande burla-falsificação de Alves dos Reis, ou caso Angola e Metrópole, com mais reflexos negativos em termos políticos do que financeiros ou económicos. Alves dos Reis inundou o País com 200 000 notas de 500 escudos duplicadas, com a efígie de Vasco da Gama.


Em 1930, o ministro das Finanças António de Oliveira Salazar, acabou com a dupla circulação monetária em Portugal, retirando a divisa monárquica. A partir de 1931, assistiu-se a um novo período na história da moeda portuguesa, marcado pela transformação oficial do escudo de ouro em simples padrão teórico. O escudo conheceu entre 1920 e 1940, apesar dos percalços da economia portuguesa, um período de "relativa estabilidade", com"apenas" 20 desvalorizações. Até ao fim da Segunda Guerra Mundial, 1945, o escudo não evitou algumas derrapagens e oscilações, devido ao conflito, mas depois recuperou a estabilidade, que se manteve até à década de 60. Outra faceta curiosa marcou a evolução do escudo no Estado Novo: o uso de notas e moedas como complemento popularizante dos manuais de história e da propaganda oficial do regime. Registou-se na Ditadura também uma normalização de emissões de notas e moedas, "patrióticas" e de glorificação dos heróis nacionais e dos Descobrimentos. 

Na década de 60 o império começou a ruir. O escudo coabitava nas colónias com moedas locais; aí a guerra estalava e ameaçava perdurar, como veio a suceder. Na economia portuguesa, a inflação, pela primeira vez na história da Ditadura, conheceu um crescimento desmesurado, com o poder de compra em queda e as convulsões sociais a ameaçarem crises políticas. Em 1971, na Europa comunitária, entretanto, começava a construir-se amoeda única europeia. Em Portugal, depois do 25 de abril de 1974, acabou a chamada "zona do escudo",processo que se concluiria nas ex-colónias em 1977, com a implementação das novas moedas nacionais. Crises económicas e inflação permanente em níveis elevados assolaram o País desde a Revolução, principalmente entre 1977 e 1986, conhecendo-se depois, graças à adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia um período de crescimento económico. Novas moedas de 1, 5 e 10 escudos de latão-níquel e de 20, 25, 50, 100 e 200 em cupro-níquel, para além de edições especiais. Alguns destes valores em moeda seriam extintos na década de 90.Em relação ao papel-moeda, mantiveram-se em circulação notas nos valores anteriores e iniciou-se a emissão de valores novos: 2 000 escudos (1991), 5 000 (1980) e 10 000 (1996). As últimas notas em escudos fabricadas pelo Banco de Portugal (1 000, 2 000, 5 000 e 10 000) entraram em circulação em fevereiro e outubro de 1996.


Entretanto, desde julho de 1990 que existia a União Económica e Monetária, que visava a coordenação das políticas monetárias europeias e a criação a médio prazo de uma moeda única na União Europeia (UE, nova designação da CEE desde 1992). Desde 1994 os estados-membros da UE adotaram políticas de combate ao défice e de convergência económica. Em 1995, cria-se a designação de "euro" para a nova moeda única, em substituição do ECU. Entretanto, o escudo preparava-se para desaparecer: em 1999, valia menos 2 500 vezes do que quando foi criado. Portugal foi um dos países que conseguiu entrar no clube Euro dos países que adotariam a nova moeda única, graças ao facto de ter conseguido cumprir os critérios de convergência para a nova divisa. O euro começou a fazer parte em 1 de janeiro de 2002 nas carteiras dos portugueses, coabitando com o escudo até 28 de fevereiro desse ano, quando a velha moeda republicana portuguesa, com 91 anos, desapareceu para sempre.

História do escudo. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. 
wikipedia (Imagens)

50 centavos 1926
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